Nous nous méfions les uns des autres!(extrait du journal des affaires port.,

L'auteur parle de la méfiance que nous avons les uns pour les autres!
De l'absurdité de l'univers où nous vivons aujourd'hui. Des scandales politico-financiers...Du manque de respect, de la non tenue des contrats sociaux, enfin du problème de l'incommunicabilité
entre les partenaires, les voisins, la société!
Rosario Duarte da Costa
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Andamos desconfiados uns com os outros. Perdemos um pouco do ímpeto que nos caracterizava e que conferia à improvisação a marca d'água de um estilo. Apesar de tudo, como povo fomos alguma coisa, que abandonámos, movidos sabe-se lá por que outras prioridades.

Manuel da Fonseca, sobre ser um dos maiores escritores portugueses do século XX, costumava dizer: "Portugal é o país que há, e os portugueses são o povo que se arranja." A crítica é merecida. Camões, n'"Os Lusíadas", não deixa de zurzir a nossa melancólica quietude. E os homens da geração de 70, século XIX, tentaram descortinar as origens desta espécie de prostração moral.

De vez em quando, surge a aparência de um regozijo, uma alegria espessa. Depois, voltamos à feira cabisbaixa do nosso aparentemente irremediável destino. Pensando bem, temos razões para ser infelizes ou, pelo menos, pouco felizes. Os políticos mentem-nos, manipulam a nossa benevolência, prometem-nos melhorias, cavalgam as nossas mais rústicas e asseadas esperanças. As instituições seguem-lhes o rasto. Foram, aliás, criadas por eles, ou são filhas dilectas do sistema. Os peralvilhos que as dirigem, sob designações as mais diversas, são criaturas pouco recomendáveis.

Todos nós sabemos disto, comentamos amargamente a roubalheira que por aí anda, nem sequer nos divertimos quando banqueiros vão para a cadeia ou estão sob a ameaça de lá ir parar. Desconfiamos mas não damos um passo para as coisas serem diferentes. Votamos nos partidos que sustentam esta gente porque esta gente mantém o sistema e não está nada interessada em o alterar. Aliás, nada de real e de rigoroso poderá ser feito sem se pulverizar as estruturas que vão segurando, como um andaime, esta sociedade.

A Banca, um dos fundamentos do capitalismo, sob o qual vivemos, tem sido, nos últimos tempos, um chavascal de infâmia. Comente, a Banca, as tropelias mais insanas e absolutamente impróprias de uma civilização, e quase nada acontece aos prevaricadores. Perdeu-se, lentamente, mas perdeu-se a confiança nos bancos onde depositamos (os que depositam) os seus dinheiros, as suas economias, os seus sonhos.

Diariamente somos sobressaltados por escândalos que, a seguir, não têm provimento judicial. Saem livros de banqueiros contra banqueiros, uns com insinuações outros com nomes e tudo; a dimensão das revelações indica que os culpados são-no, realmente, porque antecipadamente sabedores das tranquibérnias, e nada é feito, de evidente, para resolver a questão.

Vivemos nesse universo obscuro e inquietante da competitividade e dos objectivos a atingir. Vale tudo, inclusive a própria vida humana. Dissiparam-se os exemplos que serviam de rota e de escora. A palavra de honra deixou de comparecer nas relações sociais. A classe dirigente recusa-se a entender que uma promessa não é só um compromisso - é um crédito de honra. Mas a honra desapareceu do circuito normal onde as ligações afins se estabeleciam e se solidificavam.

Os contratos eram feitos através desses compromissos morais. Devo dizer que tenho saudades do tempo em que um aperto de mão cimentava alguma coisa. Quando entrei no "Diário Popular", em 1965, um dos proprietários do jornal, dr. Guilherme Brás Medeiros, selou o pacto com o tal aperto de mão. Brás Medeiros simpatizava com o regime salazarista, mas às suas convicções sobrepunha o sentido da honra.

Disse-me: "Sei muito bem como você pensa. Neste jornal, ninguém lhe cortará nenhum texto: isso é com a Censura." Eu sabia as coordenadas do vespertino e era leal aos princípios da honra, a que me mantenho fiel. Tive inúmeros problemas, alguns bem graves, com os coronéis da Censura. Brás Medeiros esteve sempre a meu lado. Certa ocasião fui, clandestinamente, à então República Democrática Alemã, aproveitando uma reportagem, na Alemanha Federal, para onde viajara, credenciado pelo jornal. Regressado a Portugal disse, a Brás Medeiros, da minha viagem clandestina. E ele: "Já escreveu?" Eu: "Mas o governo português não tem relações diplomáticas com a RDA." Ele: "Isso não é consigo!" Escrevi três longos textos, foram compostos e enviados aos coronéis.

Uma, duas semanas, e nada. Até que, certo começo de tarde, Brás Medeiros se lembrou: "Então, as reportagens do Bastos, já vieram da Censura?" O chefe de Redacção esclareceu que não. Furioso, o patrão pôs-se em contacto telefónico com o coronel Galvão. Na conversa, houve algo que enfureceu Brás Medeiros: "Quem manda aqui sou eu! E, se as provas de Censura não estiverem aqui, dentro de meia hora, vai haver caso!" Antes do tempo marcado, os meus textos estavam livres e foram publicados, durante três dias, no "Diário Popular."

A honra, a dignidade e as relações como construção dos laços sociais. Confiava-se. Apenas isto. Agora, por todo o lado, as novas figuras de autoridade, a classe dirigente e os seus pequenos estipendiados parece terem renunciado a essas práticas. Vem o Banco de Portugal e esclarece que as queixas contra as instituições que, outrora, fundavam os seus critérios na probidade e comportam-se com a mais descarada desonestidade.

Cinquenta queixas por dia contra bancos, metade das quais com fundamentadas razões. É o mundo da mentira, da torpeza e do impudor que campeia por aí, a todos os níveis e em todos os sectores da sociedade.


b.bastos@netcabo.pt