O Zé, das bordas de Leiria!

Publié le par Rosario Duarte da Costa

Imagem: Blogue de Amalio Rey

 

O Zé das bordas de Leiria!

 

Bom, se queres saber, digo-to!

 

O rapaz naquela altura fêz o serviço militar em Angola. Antes

de ter saído de Portugal, tinha trabalhado à esquerda e à direita,

porque não tinha estudos e, ficou muito novo sem mãe...

O pai casou-se novamente e fêz um filho mais, que ficou sendo

irmão dele e dos outros irmãos. Ele trabalhou ali na zona de

Leiria tanto no armezanamento, como na ajuda às tascas dali

perto. De vez em quando dava uma ajudazita àqueles que

procuravam informação os bufos ou os Pides... Não lhe custava

nada e ganhava uns patacos. Pois naquele tempo em Portugal

tudo se pagava, até o sangue que se dava para benefício dos

outros!

 

Partiu para o serviço militar. Era soldado e foi depois para

Angola.

Ao seu regresso de Angola ficou desesperado. Não tinha trabalho,

nem ninguém chegava para o ajudar... Dizam bocas que se corria depois do 25 de Abril atrás dos Pides e, de todos aqueles que os ajudaram. O Zé ficou à rasca!

Foi então por isso que ele se pirou e veio para aqui...Foi!

 

Quando aqui chegou foi ao encontro de um ou dois amigos que

já cá estavam. Estes encaminharam-no até um professor de

português no estrangeiro, que não tinha outro objectivo que o

de se fazer tratar por doutor. E, à força de lhe chamarem assim, encontrou um trabalhito como ajudante de pedreiro para o rapaz.

Então desde aí este, não reconhecia nada do que não fôsse dito

pelo tal professor de português!

 

Mas que se diga, o Zé era esperto, apesar de não ter estudado, nem aprendido qualquer profissão. A pouco e pouco foi acumulando experiência e, subia de estatuto!

De tal maneira que passou a trabalhar em “grands chantiers”.

Como um grande no Hospital de Grande Blanche. De tão contente,

até cantava em cima dos andaimes!

 

Foi assim que um dia, uma mulher - de uns douze anos mais

velha do que ele, falando com sotaque espanhol, começou a

meter-lhe conversa e, lá começaram a rir...

Umas semanas depois, lá se meteu o Zézinho com esta mulher

(mãe de sete filhos), que o marido tinha abandonado. Foi!

 

E o Zézinho tornou-se pai dos filhos da amiga, apesar de que

para alguns nem idade tinha para o ser...

Mudáram de casa, comprou um carro em segunda mão. Sim, ele trabalhava numa grande empresa empreendedora e, pouco a

pouco, apesar do seu parco conhecimento da língua françesa,

evoluíu. De manutencionário passou a pedreiro, subchefe,

chegando mesmo a chefe de uma pequena équipa. Foi!

E, como tipo trabalhador e esperto que era, até decidiu trabalhar

aos fins de semana a título particular, para os seus superiores!

 

Então, começou a ficar gordo. Adaptou mesmo um ar importante.

Mudou de carro, partindo de férias para Espanha e para Portugal,

carregado de dinheiro...Para que toda a gente o admirasse!

 

Mas um dia, una dez anos antes da reforma, o José caíu doente.

Foi para o hospital onde o operaram. E saíu a saber que nunca

mais poderia ser homem. Foi!

Daí para cá, a mulher (muito mais velha) ficou doente e quase paralizada...

Mas, ele comprou dois cãezinhos pequeninos para os passear

todos os dias...

Veste-se bem. Na rua, olha para os outros com um ar superior.

Tornou-se criticador do mundo...

 

Olha, ali vai o José ao qual eu chamo “vai e vem”, dar as suas

passeatas com um ar de antigo feodal alentejano, que se tornou

como um vento que passa mas, que ninguém olha!

Rosario Duarte da Costa

Copyright

29/05/2012

 

PS: Toute similitude de cette histoire avec une autre, n'a rien comme lien!

Publié dans Regards-Olhares!

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