Lusophonies...Livro do desassossego de Fernando Pessoa

Publié le par Rosario Duarte da Costa

 

Photo: "leituras ao vento" 

 

Livro do desassossego

de Fernando Pessoa

 

J'aime Pessoa. Cela ne m'empêche pas d'aimer les autres poètes

et poètesses...

Mais, j'aime Pessoa. Et aimer quelqu'un ou quelque chose n'est

pas discutable car, c'est un sentiment ou ressentiment personnel.

Dans ce livre le texte est laissé dans l'orthographe du portugais

d'alors. Je n'ai pas voulu le changer, par respect de l'editeur qui

est signalé en bas de page.

Lire Pessoa, c'est entrer dans le champ poétique et filosophique...

   

"As cousas mais simples, mais realmente simples, que nada pode

tornar semi-simples, torna-m’as complexas o eu vivel-as. Dar a

alguem os bons dias, por vezes intimida-me. Secca-se-me a voz,

como se houvesse uma audacia extranha em ter essas palavras

em voz alta. É uma especie de pudor de existir - / não tem outro

nome!/

 

A analyse / constante/ (2) das nossas sensações cria um modo

novo de sentir, que parece artificial a quem analyse só com a

intelligencia, que não com a propria sensação.

 

Toda a vida fui futil metaphysicamente, serio a brincar. Nada

fiz a serio, por mais que quizesse. Divertiu-se em mim comigo

um Destino/malin/.

 

    Ter emoções de chita, ou de seda, ou de brocado!

Ter emoções descriptíveis assim! Ter emoções descriptíveis!

 

   Sobe por mim na alma um arrependimento que é de Deus

por tudo, uma paixão surda de lagrimas pela condenação dos

sonhos na carne dos que sonharam... E odeio sem odio todos

os poetas que escreveram versos/todos os idealistas que

fizeram ver o seu ideal, todos os que conseguiram o que queriam/.

 

   Vagueio indefinidamente nas ruas socegadas, ando até cansar

o corpo em acordo com a alma, doe-me até aquelle extremo da

dôr conhecida que tem um goso em sentir-se, uma compaixão

materna por si-mesma, que é musicada e indefinivel.

 

   Dormir! Adormecer! Socegar! Ser uma conciencia abstracta

de respirar socegadamente, sem mundo, sem astros, sem alma

– mar morto de emoção reflectindo uma ausencia de estrellas! "

In: Livro do Desassossego- por Bernardo Soares

P36- Ed. Ática -1962

Rosario Duarte da Costa

Copyright

04/07/2012

 

"extrait du travail da "Casa Fernando pessoa"

 

 
Português
English

Um universo plural

Inaugurada em Novembro de 1993, a Casa Fernando Pessoa foi concebida pela Câmara Municipal de Lisboa como um centro cultural destinado a homenagear Fernando Pessoa e a sua memória na cidade onde viveu e no bairro onde passou os seus últimos quinze anos de vida, Campo de Ourique.

Possuindo um auditório, jardim, salas de exposição, objectos de arte, uma biblioteca exclusivamente dedicada à poesia, além de uma parte do espólio do poeta (objectos e mobiliário que pertenceram ao poeta e que são actualmente património municipal), a Casa Fernando Pessoa é um pequeno universo polivalente onde, nos seus três pisos principais, se realizam colóquios, sessões de leitura de poesia, encontros de escritores, espectáculos musicais e de teatro, conferências temáticas, cursos, exposições de artes plásticas, sessões de apresentação de livros, oficinas criativas para crianças, numa programação o mais possível diversificada.

 

 

 

 

 

 

 

Horário: 
De Segunda a Sexta,
das 10h00 às 18h00

 

 

 

Entrada livre

Visitas Guiadas para estabelecimentos de ensino

Folheto

 

 

 

 

 

AUTOBIOGRAFIA SEM FACTOS

 

1.      

      Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido — sem saber porquê. E então, porque o espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser, podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses tinham cabeças de animais.      
      Assim, não sabendo crer em Deus, e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia.      
      A quem, como eu, assim, vivendo não sabe ter vida, que resta senão, como a meus poucos pares, a renúncia por modo e a contemplação por destino? Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, porque se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstracção do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, ficava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida. E, assim, alheios à solenidade de todos os mundos, indiferentes ao divino e desprezadores do humano, entregamo-nos futilmente à sensação sem propósito, cultivada num epicurismo subtilizado, como convém aos nossos nervos cerebrais.      
      Retendo, da ciência, somente aquele seu preceito central, de que tudo é sujeito a leis fatais, contra as quais se não reage independentemente, porque reagir é elas terem feito que reagíssemos; e verificando como esse preceito se ajusta ao outro, mais antigo, da divina fatalidade das coisas, abdicamos do esforço como os débeis do entretimento dos atletas, e curvamo-nos sobre o livro das sensações com um grande escrúpulo de erudição sentida.      
      Não tomando nada a sério, nem considerando que nos fosse dada, por certa, outra realidade que não as nossas sensações, nelas nos abrigamos, e a elas exploramos como a grandes países desconhecidos. E, se nos empregamos assiduamente, não só na contemplação estética mas também na expressão dos seus modos e resultados, é que a prosa ou o verso que escrevemos, destituídos de vontade de querer convencer o alheio entendimento ou mover a alheia vontade, é apenas como o falar alto de quem lê, feito para dar plena objectividade ao prazer subjectivo da leitura.
      Sabemos bem que toda a obra tem que ser imperfeita, e que a menos segura das nossas contemplações estéticas será a daquilo que escrevemos. Mas imperfeito é tudo, nem há poente tão belo que o não pudesse ser mais, ou brisa leve que nos dê sono que não pudesse dar-nos um sono mais calmo ainda. E assim, contempladores iguais das montanhas e das estátuas, gozando os dias como os livros, sonhando tudo, sobretudo, para o converter na nossa íntima substância, faremos também descrições e análises, que, uma vez feitas, passarão a ser coisas alheias, que podemos gozar como se viessem na tarde. 
      Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.      
      Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde ela me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo os meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento,  vagos cantos que componho enquanto espero. 
      Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a  alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também.

                                                                                                  ...

D. «Ideias metafísicas do Livro do Desassossego» 

 


      A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas.
      A verdade? — É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê?
      Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim sou eu próprio. Isolar-me tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade.
      Toda a metafísica é a procura da verdade, entendendo por Verdade a verdade absoluta. Ora a Verdade, seja ela o que for, e admitindo que seja qualquer coisa, se existe existe ou dentro das minhas sensações, ou fora delas ou tanto dentro como fora delas. Se existe fora das minhas sensações, é uma coisa de que eu nunca posso estar certo, não existe para mim portanto; é, para mim, não só o contrário da Certeza, porque só das minhas sensações estou certo, mas o contrário de ser, porque a única coisa que existe para mim são as minhas sensações. De modo que, a existir fora das minhas sensações, a Verdade é para mim igual à Incerteza e não-ser — não existe e não é a verdade, portanto. Mas concedamos o absurdo de que as minhas sensações possam ser o erro, e o não-ser (o que é absurdo, visto que elas, com certeza, existem)
— nesse caso a verdade é o ser e existe fora das minhas sensações totalmente. Mas a ideia Verdade é uma ideia minha; existe, por isso, dentro das minhas sensações: portanto, no que Verdade abstracta e fora de mim, a verdade existe dentro de mim — contradição, portanto; e erro, consequentemente.
      A outra hipótese é que a verdade exista dentro das minhas sensações. Nesse caso ou é a soma delas todas, ou é uma delas, ou parte delas. Se é uma delas, em que se distingue das outras? Se é uma sensação, não se distingue essencialmente das outras; e, para que se distinguisse, era preciso que se distinguisse essencialmente. E se não é uma sensação, não é uma sensação.
      Se é parte das minhas sensações, que parte? As sensações têm duas faces — a de serem sentidas e a de serem dadas como coisas sentidas, a parte pela qual são minhas e a parte pela qual são de «coisas». É uma destas partes, que a verdade, a ser parte das minhas sensações, tem de ser. (Se é de qualquer modo um grupo de sensações unificando-se a constituir uma só sensação, cai sob a garra do raciocínio que liquida a hipótese anterior.)
      Se é uma das duas faces — qual? A face «subjectiva»? Ora essa face subjectiva aparece-me sob uma de duas formas — ou a da minha «individualidade» una ou [a] de uma múltipla individualidade «minha». No primeiro caso é uma sensação minha como qualquer outra e já fica refutada no argumento anterior. No segundo caso, essa verdade é múltipla e diversa, é verdades — o que é contraditório com a ideia de Verdade, valha ela o que valer.
      Será então a face objectiva? — O mesmo argumento se aplica, porque ou é uma unificação dessas sensações numa ideia de um mundo exterior — e essa ideia ou não é nada ou é uma sensação minha, e se é uma sensação, já fica refutada essa hipótese; ou é de um múltiplo mundo exterior, e isso reduz-se à mesma contradição entre pluralidade de verdades e a essência da ideia de Verdade.
Resta analisar se a Verdade é o conjunto das nossas sensações. Essas sensações ou são tomadas como uma ou como muitas. No primeiro caso voltamos à já rejeitada hipótese. No segundo caso a Verdade como ideia desaparece, porque se consubstancia com a totalidade das nossas sensações. Mas para ser a totalidade das nossas sensações, mesmo concebidas como nossas sensações, nuamente, a verdade fica dispersa — desaparece. Porque, ou se baseia na ideia de totalidade, que é uma ideia (ou sensação) nossa, ou não se apoia em parte nenhuma. Mas nada prova, mesmo, a identidade de verdade e totalidade. Portanto, a verdade não existe.
      Mas nós temos a ideia...
      Temos, mas vemos que não corresponde a «Realidade» nenhuma, suposto que Realidade significa qualquer coisa. A Verdade é portanto uma ideia ou sensação nossa, não sabemos de quê, sem significação, propósito ou valor, como qualquer outra sensação nossa.
      Ficamos portanto com as nossas sensações por única «realidade», entendendo que «realidade» não tem aqui sentido nenhum, mas é uma conveniência para frasear. De «real» temos apenas as nossas sensações, mas «real» (que é uma sensação nossa) não significa nada, nem mesmo «significa» significa qualquer coisa, nem «sensação» tem um sentido, nem «tem um sentido» é coisa que tenha sentido algum. Tudo é o mesmo mistério... Reparemos porém em que nem tudo quer dizer coisa alguma, nem «mistério» é palavra que tenha significação.

 

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