"Les Anagrammes de Varsovie", de Richard Zimler! (Lusophonies)

Publié le par Rosario Duarte da Costa

Les anagrammes de Varsovie
RICHARD ZIMLER

 

 

Et voilà!

Richard Zimler, dont je vois ai si souvent parlé, vient de sortir

en France chez  Buchet-Castel son livre

"Les Annagrammes de Varsovie".

 

Ce livre vient d'obtenir le Prix du meilleur livre de l'année au Portugal, et il est cité au Prix international  IMPAC- comme je

l'ai déjà dit sur mon article précedent.

Richard est un auteur nouvelle vague très actif , avec une capacité de création considérable.

L'action de se livre se passe en 1941/42 dans un ghetto de Varsovie où, se promènent des fantômes au milieu des nazis

et, un vieil homme courageux part à la découverte de la vérité!

Merci, Richard!

Rosario Duarte da Costa

Copyright

05/02/2013

 

 

Entrevue de l'Auteur

 

Richard Zimler – Entrevista a propósito de “Os Anagramas de Varsóvia”

Publicado em 20/10/2009 | 4 Comentários

Richard Zimler, escritor norte-americano residente há duas décadas no Porto, lançou recentemente mais um romance, “Os Anagramas de Varsóvia” (edição Oceanos), uma poderosa obra cuja acção decorre em 1940/41 no gueto de Varsóvia durante a ocupação nazi e que, afinal, é um policial. Erik, um idoso já morto e fantasma, é o herói improvável que não descansa enquanto não descobre o responsável pela macabra morte do seu sobrinho-neto, Adam. Como Zimler nos explica nesta entrevista, trata-se de uma história sobre heroísmo e coragem, mas a conversa com o Porta-Livros levou também a outros caminhos, nomeadamente de ida e volta até à América. 

Como lhe surgiu a ideia deste livro, “Os Anagramas de Varsóvia”? Pretendia escrever um policial ou pretendia escrever sobre o gueto de Varsóvia e daí foi parar ao policial?
Foi um pouco dos dois. Porquê o gueto de Varsóvia? Eu sempre achei que devia saber mais sobre aquele aspecto do holocausto. Não conhecia a vida quotidiana das pessoas internadas nos guetos da Polónia e de outros países. Como é que elas viviam, se havia escolas, hospitais… Comecei simplesmente a fazer pesquisa e li vários livros, não só sobre Varsóvia mas também sobre cidades polacas como Lodz, que curiosamente era a cidade onde o lado materno da minha família vivia. E ao fazer a pesquisa surgiu a ideia de fazer um policial, porque havia um mercado negro muito grande e muito dinâmico em Varsóvia. As pessoas lá, principalmente, mas não só, as crianças, aproveitavam, para passar de um lado ao outro, os túneis, os esgotos e até os prédios que foram interligados (era uma situação muito curiosa, porque eles fizeram um muro entre os dois lados arbitrariamente e às vezes cortavam um prédio ao meio e então era possível entrar nas duas zonas, a cristã e o gueto). Só para dizer que o mercado negro, por ter uma atmosfera muito sombria, clandestina, em que utilizavam uma espécie de código para referir nomes de pessoas, deu-me a ideia para um policial. 

Porque optou por colocar como narrador uma pessoa que já morreu?
Também não foi planeado. A ideia original era escrever um romance do ponto de vista de um homem já velho porque queria explorar a mentalidade de uma pessoa perto da morte, que já tinha perdido tudo, como é que conseguiu continuar e encontrar um significado de vida depois de perder, neste caso, a sobrinha e o sobrinho-neto, etc. Então, a ideia inicial é que ele regressava de um campo para a sua cidade, Varsóvia. Comecei a escrever a primeira página e o narrador disse: «Eu sou um homem morto.» E ele estava a falar de maneira metafórica. «Tudo o que tinha na vida já não existe, não faz sentido continuar, sou um homem morto.» Mas, de repente, surgiu-me uma revelação: ele está realmente morto, está a voltar como fantasma. (Não gosto muito da palavra fantasma porque soa a sobrenatural, àqueles programa pirosos de televisão.) Mas ele era um fantasma a voltar e eu não sei porquê mas logo a seguir tive a ideia de uma única pessoa, um visionário com capacidades além do normal, poder ouvir e ver este fantasma. E pensei: que ideia gira, um fantasma a falar com a única pessoa que o consegue ver. Porque isso implicava uma responsabilidade mútua, do fantasma a contar a história verídica e da pessoa a receber essa história e a transmitir os temas e as mensagens do fantasma de uma maneira fiel. Achei que era uma maneira interessante de organizar o romance. 

Entre tantas mortes gratuitas ocorridas no gueto de Varsóvia, havia razões para uma pessoa procura saber a origem de uma morte em particular?
Não podemos apreciar e compreender um crime contra a humanidade como o holocausto, ou o Ruanda, ou a situação de Israel, falando apenas em estatísticas. O que é que isso quer dizer? Nada! É importante mas não nos afecta emocionalmente, portanto a única maneira de conseguir emocionar o leitor é através de um indivíduo, daí uma das ideias principais do romance ser a perda do sobrinho-neto e de como isso afecta o seu tio-avô. Acho que Erik, o narrador, ficou obcecado com isso porque primeiro o Adam representava o futuro para ele e o futuro do povo judaico. A segunda razão, é que há uma cena no romance em que o rapaz está a cantar com o seu coro, composições de Bach, e o Erik percebe, outra vez como uma revelação, que o mais importante para ele no gueto é proteger o seu sobrinho-neto. Ele já é velho, não tem muito futuro, e então a única coisa que pode fazer é proteger este rapaz, que tem talento, que é interessante, simpático, está cheio de vida. E ele não consegue, o miúdo morre. Se eu estivesse naquela situação, não podia viver sem vingar a morte desta criança. É esse um dos significados para Erik. 

Usou histórias reais neste romance, para além da generalidade do que aconteceu no gueto?
Acho que não. Li muito, diários, relatos, um livro muito bom que se chama “Crónicas do Gueto de Varsóvia”, de Emanuel Ringelblum, que formou um grupo de historiadores e voluntários para tomar notas e escrever sobre todos os aspectos do gueto e também para recolher bilhetes de eléctrico, cartazes, tudo, para criar um espólio da experiência do gueto. Eles, sabendo que iam morrer, enterraram aquilo em caixotes de leite que só foram descobertos depois da libertação do gueto. Parece outra vez um policial. Estas crónicas foram uma ajuda importante, mas acho que os meus personagens não são baseados, que eu saiba, em ninguém particular. Não me sinto confortável a “roubar” a vida de uma pessoa real. As situações são reais, os pormenores precisos e correctos, mas as pessoas são inventadas.

Ao fazer as suas investigações ainda se surpreende com o que encontra, nomeadamente no que respeita ao mal que era feito na época dos nazis?
Curiosamente não é a maldade que me surpreende, mas a coragem das pessoas. Por exemplo, morreu recentemente o último líder de uma milícia judaica que participou na insurreição do gueto de Varsóvia. Estava a viver na Polónia, participou na fundação do Solidariedade… A coragem daquela gente de enfrentar o exército alemão com armas caseiras e pistolas sabendo que iam morrer, isso surpreende-me sempre. 

O ambiente deste livro é pesado, sombrio, triste. Quando escreve sente que isso se reflecte em si? Sente-se aliviado quando o termina? 
Curiosamente, eu primeiro queria evitar escrever um livro deprimente. Isso não ajuda, não acho útil para o mundo escrever um livro que vai dizer ao leitor: não há esperança, é tudo uma merda, um sofrimento… eu evito isso. Para mim este romance é realmente um romance de heroísmo, de Erik e Izzy, e das outras pessoas, que estão a lutar apesar de todas as dificuldades, todos os traumas, todas as impossibilidades. E lutam com sentido de humor, e com força, e com paixão e amor e solidariedade. Então, para mim, não é um livro deprimente ao escrever. Evidentemente, às vezes fico perturbado. Acho que a cena que mais me perturbou é quando Erik faz uma descrição de uma senhora já de uma certa idade que morreu de fome, e ele descreve muito pormenorizadamente o corpo dela, utilizando linguagem poética. A segunda cena que me inquietou foi perto do fim, quando o Erik faz um sacrifício para salvar o seu grande amigo de infância, que é o Izzy. Pensei, bom, isto significa que o Erik vai morrer, mas ele tinha de morrer porque começou o romance como fantasma. Mas, mesmo assim, não queria que ele morresse.

Não o incomoda por vezes ser catalogado como o escritor que escreve sobre judeus? Por vezes não quer tentar outras áreas, ou tudo surge naturalmente?
Primeiro surge naturalmente. Eu já escrevi sobre outros assuntos. No “Goa ou o Guardião da Aurora” escrevi sobre como a Inquisição afectou a Índia, os ex-hindus (os hindus convertidos à força) em Goa. Eles vão pôr-me um rótulo sejam quais forem os temas dos meus livros, os livreiros, os jornalistas, fazem isso. Então, se não fosse escritor judeu, americano, inventavam outra coisa. Não sei… acabei um romance agora sobre uma jovem luso-americana que vive em Nova Iorque. Os pais mudaram de Lisboa para Nova Iorque, está lá a viver há um ano, muito desorientada porque não consegue lidar com a cultura americana e com a língua inglesa, e o livro não tem nada que ver com judaísmo.
Eu tive uma ideia para um romance que poderia fazer a fronteira entre o romance adulto e o romance de jovens. E então é sobre uma jovem luso-americana de quinze anos, muito gira, com grande sentido de humor, mas muito desnorteada. 

E o Porto, não pode aspirar a ser protagonista de um dos seus romances?
O Porto entrou no “Meia-Noite ou o Princípio do Mundo”. Esse é o meu livro de homenagem ao Porto. Se calhar vou escrever sobre o Porto no futuro. Também entra no “À Procura de Sana”

Tem medo de ser mal compreendido se escrever uma história totalmente a decorrer no Porto?
Não, não, de maneira nenhuma. Quando escrevi “Meia-Noite ou o Princípio do Mundo”, e as primeiras cem páginas decorrem no Porto, um dos meus objectivos era recriar a cidade do princípio do século XIX. E gostei de fazer pesquisa, e ter mapas em casa, de ler livros sobre as invasões francesas. Se calhar no futuro seria giro escrever sobre o Porto actual, tenho de pensar nisso. 

Tem noção que o seu trajecto é o oposto de muita gente que tem o sonho de ir para a América. Não há quem lhe transmita que acha estranho que alguém que teve a sorte de estar na América venha para Portugal?
Não, porque acho que tenho muita sorte em estar em Portugal. Eu gosto de viver cá, a qualidade de vida no Porto, pelo menos para alguém que tem algum dinheiro, é muito alta. Quando as pessoas fantasiam sobre os Estados Unidos esquecem-se que também lá há muitas dificuldades. Só para dar um exemplo, a competição nos Estados Unidos é brutal, o português não imagina a competição que há para conseguir qualquer sucesso, quer seja como escritor arquitecto, jornalista. Os Estados Unidos realmente têm aspectos que são muito mais positivos, é uma sociedade muito mais dinâmica que a portuguesa, isso é verdade, é uma sociedade mais aberta, mas também tem um lado de grandes dificuldades, e agora há um desemprego brutal. Eu gosto de passar férias nos Estados Unidos, mas não sei se queria viver lá. 

Nunca pensou, portanto, em regressar?
Em Maio fizemos férias perto do Grand Canyon, naquela zona enorme do deserto norte-americano, os parques naturais. Adorei lá estar, tão bonito, inimaginável, tem uma dimensão que não há na Europa. E as pessoas tão abertas e simpáticas, a comida é excelente, o tempo maravilhoso, e pensei que seria interessante lá viver um ano, numa pequena cidade ao lado de um parque natural americano, porque é realmente um outro planeta. Mas tenho compromissos cá e se calhar não vou poder viver essa fantasia. Mas já vivi tantas fantasias que não preciso de explorar muitas mais. 

Os Estados Unidos nos últimos perderam uma boa parte da boa imagem que tinham. Acha que agora com o novo presidente, Barack Obama, isso pode ser recuperado?
Penso que sim. Ele acabou de ganhar o Nobel da Paz, o que por um lado é bom e, por outro, um bocado absurdo. Mas acho que Barack Obama é de facto um grande salto numa direcção positiva para os Estados Unidos e para o mundo, porque tudo o que os Estados Unidos fazem, para o melhor e para o pior, afecta muito os outros países. Espero sobretudo que na área da política externa possam ter uma acção mais sensata, porque por exemplo a guerra no Iraque, na minha opinião, foi um grande erro. Espero que haja uma política externa e doméstica muito mais sensata e acho que todo o mundo tem essa esperança. 

Mas Barack Obama representa um grande salto porque o que estava antes era muito mau, ou ele realmente está acima da média?
As duas coisas. O panorama realmente estava muito mau a nível de economia, política externa, e qualquer pessoa de uma inteligência razoável já seria um salto. Mas eu acho que ele é realmente muito inteligente, o discurso dele em inglês e a maneira como utiliza as palavras e as expressa, o seu ritmo de fala, evidencia uma grande capacidade intelectual. Não tivemos um presidente que falasse tão bem durante toda a minha vida, nem o Clinton, que também era muito inteligente. Mas o Obama está a anos-luz dele em termos de capacidade de orador. Pode dizer-se que isso não é assim tão importante, mas revela uma faceta dele diferente. Outro aspecto muito importante, na minha opinião, é que ele tem muito mais experiência do estrangeiro do qualquer outro presidente do século XX ou XXI. Ele já viveu na Indonésia, tem um lado da família africano, acho isso super importante. Uma lacuna e um defeito na mentalidade dos americanos é a falta de conhecimento do mundo exterior. Só um povo que não tem a menor ideia do resto do mundo poderia fazer a guerra do Vietname ou do Iraque, ou Guantánamo. Espero bem que com ele se possa evitar esse tipo de erros de política externa. 

O que leva a que o povo americano tenha esse desconhecimento?
Porque não viaja. Recentemente, li uma estatística que revela que só sete por cento dos americanos tem passaporte. E desses sete por cento, só dez por cento é que viaja anualmente para o estrangeiro; é uma percentagem mínima que conhece o estrangeiro. Quando se está nos Estados Unidos é como se o resto do mundo não existisse. É tão grande e variado que uma pessoa pode viver lá toda a vida sem sair. E a cultura norte-americana é tão dinâmica e forte que é possível passar toda a vida a ler livros de romancistas americanos e a ver só filmes americanos. 

Mas como é que os americanos, não saindo eles próprios do seu país, conseguem exportar a sua cultura?
Isso é de facto um mistério. Acho que a cultura americana é muito forte, mas não sei bem porquê ou como. Talvez seja a informalidade misturada com um dinamismo comercial muito desenvolvido e muito forte. Um exemplo de um dos mistérios mais importantes para a Europa é este: os imigrantes de Portugal, França, América do sul, Cambodja, China que vivem e trabalham nos Estados Unidos e conseguem a cidadania norte-americana são tão americanos como uma pessoa cuja família viva lá há dois séculos. E ele quer ser americano, independentemente da sua etnia ou religião, tem orgulho de ser americano. Na Europa, isso às vezes não acontece. Por exemplo, ainda há muçulmanos árabes em França que estão lá há trinta anos e que não se consideram franceses, não têm orgulho nisso. É difícil para um americano perceber isso, é um mistério que a Europa não consiga fazer isso e a América consiga.

 

 

 

 

 

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