L’Éditrice et poétesse portugaise Maria do Rosário Pedreira

Publié le par Rosario Duarte da Costa

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L’Éditrice et poétesse portugaise Maria do Rosário Pedreira

 

L’éditrice et poétesse Maria do Rosário Pedreira, vient d’être distinguée avec le Prix D. Inès de Castro en 2012, avec son livre :

Poesia Reunida/ Poésie Réunie.

Félicitations à Maria do Rosário Pedreira, dont les poèmes évoquent l’amour dans son essence première, et qui semblent dessiner les

“jeux de l’amour”, montrant que sont toujours les mêmes enjeux hier ou, aujourd’hui.

 

Voici en portugais, un article du journal DN, un autre déjà ancien, du journal portugais « O público », sur « Tous les noms de l’Amour »,

ainsi qu’une page du Magasine ARTES (ARTS) qui parle d’un autre travail intitulé :

« Aucun nom après » !

  

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O  Prémio Literário Fundação Inês de Castro distingue este ano Maria do Rosário Pedreira, pelo seu livro "Poesia reunida - A ideia do fim" (Quetzal Editores), anunciou

a fundação no seu site oficial.

 

A obra distinguida reúne os volumes anteriormente publicados pela autora,

"A Casa e o Cheiro dos Livros", "O Canto do Vento nos Ciprestes" e "Nenhum Nome Depois", além do inédito "A Ideia do Fim". Maria do Rosário Pedreira é editora, dedicando-se hoje à descoberta e divulgação de novos autores portugueses. A sua poesia está representada em numerosas antologias e revistas portuguesas e estrangeiras, tendo recebido diferentes prémios literários.

O júri do prémio - composto por José Carlos Seabra Pereira (presidente), Mário Claúdio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia - decidiu ainda distinguir a obra de Almeida Faria com o Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro 2012. Para além de romancista, Almeida Faria é autor de ensaios, contos e peças de teatro.

A cerimónia de entrega do prémio irá realizar-se no dia 2 de março, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra. A premiada vai receber Aum troféu de prata e pedra, da autoria do escultor João Cutileiro.

Esta é a sexta edição do prémio anual, que antes distinguiu Pedro Tamen, Teolinda Gersão, José Tolentino de Mendonça, Hélia Correia e Gonçalo M. Tavares pelo livro "Uma viagem à Índia" (2011).

 

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Todos Os Nomes do Amor
PÚBLICO, Sábado, 03 de Abril de 2004

Fernando Pinto do Amaral

É quase sempre difícil e arriscado escrever poesia de amor. Sendo o género mais praticado desde a adolescência - e por isso presente na produção juvenil de muitos poetas - , o lirismo amoroso costuma implicar alguns perigos tanto ao nível de uma certa monotonia temática (encontros e desencontros, desejos impossíveis ou concretizados, etc.) como no campo da própria linguagem, geralmente algo codificada e por vezes sujeita aos habituais lugares-comuns eróticos e sentimentais.

É por causa destes riscos que se torna mais grato saudar a publicação do último livro de poemas de Maria do Rosário Pedreira (n. 1959), que escapa bem a tais armadilhas e se dá a ler como uma bela colectânea de textos em que o amor ultrapassa a dimensão mais óbvia, servindo quase sempre de ponto de partida para um conhecimento do enigma que o move, nesse infinito labirinto de relações humanas a que só o amor pode conferir alguma hipótese de sentido.

Revelada em 1996 com "A Casa e o Cheiro dos Livros" e prosseguida em 2001 com "O Canto do Vento nos Ciprestes", a poesia de Maria do Rosário Pedreira tem-se distinguido por um tom profundamente intimista, feito de palavras para repetir em voz baixa, segredadas em confidências cujos destinatários se pressentem a cada instante, através de pequenos sinais dispersos pelo tempo e pelo espaço das memórias que um dia lhes deram plena substância, e cujo fulgor persiste sempre, como uma cicatriz que ainda pode doer quando lhe tocamos: "Entre nós há uma ferida que já não / sangra, mas não sara - um amor / que perdura e está perdido" (p. 33).

Envolvendo sempre, em maior ou menor grau, uma ideia do amor como ferida sem cura, este livro oferece-nos quatro possíveis declinações para essa dor, agrupadas segundo os nomes que as originaram: começaria por destacar a sequência "Os Nomes de Família", facilmente distinguível das restantes, na medida em que remete para lembranças bebidas no núcleo familiar e condensadas em poemas situados em cenários de infância ou sobretudo adolescência, evocações da mãe, dos avós e de outras figuras tutelares às quais os textos se dirigem como se assim procurassem saldar uma dívida antiga, recuperando os elos que ligam gerações portadoras do mesmo nome: "porque há sempre perdão para / quem tem o nosso sangue, o nosso nome" (p. 55). Desta atitude é também exemplo um poema endereçado à memória de um pai com quem só é possível falar durante os sonhos: "Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante /o sono - a ausência não te apaga como a bruma /sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos /meus sonhos um território suspenso de toda a dor, / [...] //Aí nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo/que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te/chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com/lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum/ruído que envenene as palavras: pai, pai" (p. 41).

Mas este livro não vive apenas dos apelos do sangue, inscritos à superfície do seu DNA. O amor que aqui predomina e mais nos interpela provém da força da paixão, dos efeitos luminosos e por vezes devastadores dessa energia que tudo consome, do fogo que em nós arde quando amamos alguém e corresponde a um "incêndio capaz de devorar o coração do mundo" (p. 13). Se nos aproximarmos para averiguar de que género de incêndio se trata, verificaremos que a primeira e a última parte deste conjunto dizem respeito a sentimentos cuja densidade se concentra em ambientes de alguma solidão - "São tantos os anos sem ti nos vincos/da minha saia" (p. 19) - em que o "eu" se apercebe de um fogo que não chegou a arder, num clima de desencanto ou frustração marcado por uma galeria de "nomes inúteis" ou de seres sem nome: "Não, prefiro não saber como te chamas" (p. 15).

Esta mesma atmosfera pode ainda projectar-se num espaço interior quase póstumo, em que a consciência amorosa subsiste, acima de tudo, como um incómodo fantasma ou serena recordação - "Já só consigo saber de ti pelos/jornais" (p. 64). É o que sucede ao longo do último ciclo - "Nenhum Nome Depois" - , quando o incêndio já ardeu e foi deixando em seu lugar uma paisagem calcinada de brasas ainda quentes ou de cinzas pouco a pouco mais frias, sob a acção do tempo que tende a apagar os nomes de quem amámos: "Deixei cair o tempo sobre o teu nome,/como se deita o mármore sobre a terra e/a água se derrama sobre as brasas [...] //e vi/o sangue calar-se finalmente sobre a ferida,/[...]/E a casa está hoje mais fria do que//nunca: deixei passar o tempo sobre o teu/nome e não há lareira, não há lar, não há/filhos que se pudessem perder de mim, nem/velas para encher de memória este silêncio" (p.70).

Guardei propositadamente para o fim a sequência talvez mais intensa de todo este livro, sintomaticamente intitulada "Os Nomes Interditos". O que aí está em jogo equivale a uma espécie de emoção-limite, por vezes próxima dessa certeza absoluta capaz de iluminar o caminho de quem se entrega ao abismo do amor, assumindo-o sem alternativa - "ambos descobríramos que o/destino nunca se engana no nosso nome" (p. 35) - e absorvendo essa experiência a dois até à última gota, como se pudesse desvanecer-se no minuto seguinte: "Eu sabia que adormecer//era deixar de sentir, e não queria perder os/teus gestos no meu corpo um segundo que fosse" (p. 28). Perante isto, acrescentaria apenas que a dimensão do ciúme se torna em certos momentos quase insuportável, pairando sobre uma relação amorosa que se sabe condenada à mentira e mesmo assim prefere continuar, entretecida numa sombra ou no secreto reverso desse terceiro nome que nunca chegará a ser dito:

"Os seus vestidos pretos fechados/no armário lançam uma sombra/funesta nos meus dias. A sua voz/eterna na fita do telefone é outro/espinho cravado no meu silêncio./Roubei-lhe, sem saber, todas as//palavras que te disse - porque,/num beijo meu, são ainda os seus/lábios que procuras, é dela o corpo/que abraças quando me abraças.//Se adormecer ao teu lado mais/esta noite, sei que os seus olhos/hão-de pousar gelados nas minhas/pálpebras [...]//[...] e, entretanto,/basta que me mintas, sim, mente,/mas nunca me digas o seu nome" (pp. 30/31).

 mAGAZINE artes

n.º 16, Março de 2004

NENHUM NOME DEPOIS

A poesia imensa de Maria do Rosário Pedreira

R.L.

Maria do Rosário Pedreira volta à edição com “Nenhum Nome Depois”. Regressam os versos e os poemas impregnados de uma dor que é também lugar de confluência do belo e da palavra iluminada.

Tendo publicado vai para três anos o seu anterior e fulgurante livro de poemas a que chamou “O Canto do Vento nos Ciprestes”, livro bem recebido pela crítica, Maria do Rosário Pedreira, escritora, poetisa e editora, reincide agora com a edição deste “Nenhum Nome Depois”, em edição da Gótica. Malgrado seja ainda algo reduzida a sua “obra poética” (que se resume a quatro títulos até ao momento), acode-nos de imediato a certeza de reencontrarmos aqui uma voz poética pessoalíssima e de enorme ímpeto emocional. É na verdade de uma magnífica enunciação dos afectos, do viver e do morrer, do silenciar e do gritar, do sorrir e do chorar, do amar e do perder, que estes poemas nos falam. Tudo porque, dizer, lembrar, nomear, é bem melhor do que proibir, guardar, esconder, sobretudo porque “a vida nunca foi só Inverno/nunca foi só bruma e desamparo”.

Há nos poemas de MRP uma narratividade implícita, um desfiar de memórias e afectos que faz com que o poema se institua como uma muito breve ficção, íntima, aberta em sentimentos, confessional, pulsando emoções, mas nunca frívola, banal ou melodramática:”

 Mãe, agora que guardaste na arca

as blusas pretas e os teus olhos

voltaram a ser azuis; que os meus

irmãos dormem no seu quarto um

sono de poderem ser felizes, que

 

já conseguimos dizer uma à outra

o nome dele no meio de um sorriso

porque a morte, afinal, é uma coisa

tão longe – deixa-me perguntar-te

 

porque não há retratos do meu pai

comigo ao colo, como os dos meus

irmãos que ele trazia sempre junto

ao peito e tu depois dividiste pela

casa para ele poder saber que ainda

 

te lembravas; ou então debruçado

no meu berço – que tu escondeste

no sótão ainda eu era pequena e te

sentavas a embalar vazio quando ele

não entendia porque estavas tão

triste. Mãe, eram tão azuis os olhos

 

do meu pai no dia em que levou os

meus irmãos à escola e tinham tanto

medo do que pudesse acontecer-lhes;

são tão azuis também os olhos deles

debaixo do seu sono, e os meus tão

 

negros de dúvidas – porque foste

sempre tu que me levaste sozinha

para as coisas difíceis da minha vida,

que o meu pai nem nunca quis saber

que coisas eram. Mãe, estão hoje tão

 

azuis os teus olhos com essas roupas

claras, e eu ainda tenho o nome do

meu pai entre as minhas lágrimas, mas

agora, que os meus irmãos descansam

 

no seu quarto, que já todos podemos

dizer o nome dele sem nos cortar os

lábios, diz-me a verdade: esse homem

que chorámos era mesmo meu pai?   (págs. 42-43)

 

A casa (ou as casas), neste como nos seus livros anteriores, volta a ser um local de regresso, epicentro de um descobrir da vida para sempre perdido na dor imensa da irreversibilidade do tempo.

Que guardarão para mim as casas que

deixei? O pó sobre o meu nome?    (pág. 39)

 

pergunta a autora antecipando um rememorar de lugares, cheiros, objectos, conversas perdidas entre as sombras. Encontraremos nesse regresso ao lugar da “felicidade” perdida escolhos e traços de uma tragicidade latente, por vezes lancinante e incómoda como no poema que assim começa:

 

Mãe, os meninos andam distraídos junto

ao rio e tu não queres saber de os perder.

Sentaste-te a pensar nesse homem que

apareceu e a desfolhar os malmequeres

da tua bata nova – e não viste que te

largaram a mão nem para onde fugiram

com a pressa do vento. Mãe, os meninos

 

………………………………………………………………..” (pág. 44)

 

É também uma escrita que prescinde do hermetismo (mal de que sofre muita poesia contemporânea),

(e)levando a cristalinidade dos afectos a níveis altíssimos:

           Agora há uma dor que pousa nas palavras.

Não as digas – um nome basta para

dividir o coração. Se me esqueceste entre

 

um livro e outro, finge que não sei; despede-te

de mim como uma lâmpada antiga, deixa que

a tua sombra seja a minha única paisagem.  (pág. 26)

Como se observa, MRP escreve a favor do leitor, nunca contra ele, nunca contra as palavras.

Poemas de saudades e poemas de adeus, de um acertar contas com o tempo. São poemas de lembrar, de olhar para trás e lembrar os nomes, os “inúteis”, os “interditos”, os de “família”, e também os outros, os outros nomes que não existem “depois de ti”. Assim se lêem, põe entre uma dor pressentida, poemas tão belos e desmesurados como este:

 Onde quer que o encontres

escrito, rasgado ou desenhado:

na areia, no papel, na casca de

uma árvore, na pele de um muro,

no ar que atravessar de repente

a tua voz, na terra apodrecida

sobre o meu corpo – é teu,

 

para sempre, o meu nome.  (pág. 52)

 

Ou assim:

 

Lê, estes são os nomes das coisas que

deixaste – eu, livros, o teu perfume

espalhado pelo quarto; sonhos pela

metade e dor em dobro, beijos por

todo o corpo como cortes profundos

que nunca vão sarar; ……………………… (pág. 66)

Rosario Duarte da Costa

Copyright

18/01/2013

 

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