Amadeu Baptiste "A CONSTRUÇÃO DE NÍNIVE"

Publié le par Rosario Duarte da Costa

  O ÊXODO DAS BOLHAS DE AR...

Auteur, des photos sur cette page: Ricardo Miranda "olhares.com" 

 

Amadeu Baptista

 

 A CONSTRUÇÃO DE NÍNIVE

 

Toca-me o sangue. Peço-te que me toques

o sangue. Escuta este rumor

dentro do meu peito, esta palavra enlaçada

a uma pedra que arde dentro da terra.

 

Toca-me o sangue. Ordeno que me toques

o sangue. Este rio que corre nos meus olhos,

a música silenciosa que o mar vem entregar

quando os homens regressam do crepúsculo.

 

Vê como estou vivo. Vê como sabem a terra

as minhas palavras. Vê como tenho ensanguentadas

as minhas palavras perdidas, esses barcos

que a tempestade teme e as aves anunciam.

 

Amo-te. Toca-me o sangue. Sente que venho

da noite, que é com angústia que chamo

pelo teu nome, sonho os teus sonhos,

espero as tuas mãos.

 

Toca-me o sangue. Toca os fios de dor

que me rasgam a boca. Toca o fogo dos meus cabelos.

Toca-me o sangue, a escuridão

em chamas do meu peito.

 

Sou o que espera na noite. Sou o que chora

na sombra. Sou o que espera a tua passagem

silenciosa, os teus quadris ardentes

navegando na noite impassível.

 

Espero-te. Espero-te. Um perfume ergue-se

das tuas mãos, um punhal. Toca-me o sangue.

Sou o que espera na solidão inquieta

e toma a luz pela luz dos teus cabelos.

 

Espero um rio, é uma praia que espero, o azul

penetrante da tua tristeza secreta, esse bosque

rugindo um nome e precipitando a fuga

dos que temem e estão intranquilos.

 

Toca-me o sangue. Toca o arco de fogo

que cai das minhas mãos, as sílabas perdidas na treva

por que uma criança cresce para o sono

e toca a limpidez de uma lágrima.

 

A vida vem com a brisa. Um astro

aproxima-se do teu rosto. Uma canção desprende-se

da árvore de espuma que a sombra engendra.

Toca-me o sangue. O febril sangue do meu peito.

 

Amo-te, mulher desconhecida. Amo-te.

Amo o jorro de luz da tua boca,

as tuas cálidas palavras, a orla secreta

dos teus lábios onde o mar vem beber.

 

Amo o lume inesperado dos teus olhos, o teu corpo

nervoso, as tuas mãos perdidas no vazio.

Amo as caladas cintilações da tua boca,

a pequena mancha de tule que dança nos teus olhos.

 

Como a luminosidade descobre uma sandália na areia,

o sinal recente de um beijo no contorno de um rosto,

como um coração de pedra arde dentro da pedra

e uma nuvem transfigura para sempre o horizonte, amo-te.

 

Toca-me o sangue porque te amo. Toca-me o sangue

porque trago comigo uma palavra sagrada. Porque estou

inocente. Porque te amo. E uma ponta de luz

entrega a claridade invisível dos teus dedos.

 

Um rumor de água ou de lume vem das tuas mãos.

Pulsa nas veias da noite o vento do teu nome.

Um pássaro queima a tristeza inextinguível.

Um grito, um grito rebenta finalmente no meu e no teu peito.

 

Amadeu Baptista

 

A PATRULHAR O ATLÂNTICO...

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